Lógica patética:
Todos vão à Desigual
Revolucionar sua estética,
Vestir-se diferente do normal.
Porém, reflita comigo, imagine:
O merchandising da franquia internacional
Provoca assédio ao magazine
E todo mundo acaba ficando igual.

Vá de Uber ao Íbis,
Onde o pet do guest é welcome.
Mas não se preocupe:
O hall é asseado
Como sanitário de sanatório.
Isso é em Barcelona,
Onde há décadas se constrói
Imensa catedral de sonhos,
Concebida por Gaudi,
Que aguarda a conclusão de sua obra
No céu dos arquitetos.

Mas, preste atenção:
Se o download deixar você pra baixo,
Entregue os dados de seu cartão,
Faça um upgrade promocional,
Preencha o cadastro da loja virtual,
Isso não é genial?
E se quiser comer falafel em Israel,
Aperte control, alt, del.
Mas se você estiver realmente perdido,
Sei como será acudido:
Em vez de fazer dez anos de análise,
Baixe logo o aplicativo waze

Chia, quinua, amaranto,
Cigano, vegano, espartano,
Coca-cola zero, hermano!
A esperança é Gil e Bela Gil.
Saudade de quando ainda se falava
Português no Brasil.
Facebook, web, chat,
Melão, banana, mamão.

Cuide de seu business,
E seja interativo.
Pratique fitness,
Você, que é hiperativo.
Veja as trezentas mensagens no zap.
Tome seu shake sem dar chilique
E responda as seiscentas mensagens do zap.

Você atualiza o software,
Mas não percebe seu partner;
No problem, ele está online.
Alguém já notou que zap
nada mais é que paz,
De frente para trás?
Pois siga em frente
E fique em paz,
Se for capaz.

Steve Jobs observa seu legado
No céu dos empresários;
Seu nome ficou consagrado
Pelos seus inventos extraordinários
Como o telefone mais que esperto,
Que me deixa boquiaberto:
O prodígio é relógio, despertador,
Câmara, filmadora e gravador,
Lanterna, calculadora e computador.

Existem ganhos, é certo,
Também eu tiro partido;
Há tanta praticidade,
Mesmo na minha idade.
Porém, só saberemos o que perdemos
Quando fechar a última livraria,
Quando falir a última editora,
Quando desaparecer o último cinema,
E quando for declamado o último poema.

Miklos Burger