Comentários sobre a série mexicana Maria Madalena, Netflix.
Miklos Burger, outubro de 2020.

Essa série, falada em espanhol e subtítulos em português, composta de 60 episódios de uma única temporada (cada episódio dura de 40 a 45 minutos), é muito interessante. Para nós, certamente valeu a pena assistir. Nunca foi maçante. Ao contrário, cada episódio trouxe muita excitação. É difícil parar de ver! Parece que é produção da Sony, portanto os americanos entraram com o dinheiro e mexicanos e colombianos entraram com o talento.

Fiquei surpreso com o nível apresentado pelos mexicanos. Os artistas são quase todos excelentes. A direção é boa e a fotografia bem bonita. Sem dúvida, houve pesquisa histórica e teológica para criar o roteiro. Roupas e cenários são convincentes. É uma ficção, porém baseada no que sabemos da história de Jesus e seus seguidores. Projeto ambicioso!

Evidentemente, não sabemos muitas coisas da história real, só nos chegou o relato dos evangelistas. Coube aos roteiristas preencher as lacunas, usando a imaginação. Muitas vezes ocorrem situações inverossímeis, ou improváveis, o que se chama na Bahia de culhuda. Abusaram do seguinte recurso: conversa privada acaba sendo ouvida por alguém que está escondido. Em dado momento, ocorre o contrário: quando seria óbvio que alguém teria que ouvir conversa comprometedora, devido à proximidade, isso não ocorre. Mas, em outros momentos, os roteiristas encontram soluções criativas e razoavelmente plausíveis. Aqui se trata de arte, e é uma mistura de ficção e realidade. As falhas não chegam a comprometer o projeto, outros aspectos compensam plenamente as falhas.

Os acontecimentos principais, narrados pelos evangelistas, estão presentes, de uma forma como nunca vi. Os personagens adquirem vida, o drama é real, as torturas são chocantes, a crueldade é explícita. A política é a mesma, exatamente a mesma de sempre. Uma certa visão romântica cai por terra e sentimos o que essas pessoas passaram de fato.

Os ensinamentos de Jesus tocam o coração. São tão simples, mas quase ninguém conseguiu os entender naquela época e, possivelmente até hoje. Jesus foi profeta, trouxe um conhecimento sobre o amor, sobre Deus, completamente insólito para a época que vivia. Pode-se dizer que estava milênios a frente de seu tempo. São diversas temáticas que ocorrem durante os episódios, e todas elas nos dizem respeito, tocam a nossa humanidade.

O ponto alto do filme são os atores e atrizes. Madalena é maravilhosa, Jesus é excelente, Simão Pedro emocionante, Herodes é perfeito, assim como Lázaro e Barrabás. O ator que faz o diabo que tenta Jesus é fantástico. Caifás é impecável, genial, não conseguiria mais imaginá-lo de outra forma. Pôncio Pilatos, e tantos outros personagens conseguem ser convincentes. O general Caio Valério, um dos papéis principais, e que foi inventado para a trama, se sai muito bem. São papéis difíceis e, no entanto, os artistas emocionam. Não sabia que havia tantos excelentes atores e atrizes no México e Colômbia. Talvez deva mencionar duas exceções: João Batista e Maria (mãe de Jesus). João Batista não é mau ator, apenas seu tipo físico não se adequa ao personagem. Quanto à Maria, não conseguiu se sair bem, não convenceu.

Essa trama, que aconteceu mais ou menos como mostra a série, aconteceu há dois mil anos. Que história incrível! Quantas lições nos traz até hoje! Que riqueza, que trabalho bonito! Há momentos profundamente emocionantes. E certamente me deu o que pensar. Foi uma delícia ouvir os diálogos em espanhol. Recomendo!