Reencontrar a criança dentro de nós, aquela criança que nós fomos
e que, de certa forma, ainda somos,
é a experiência mais emocionante que possa existir.

É, também, a experiência mais curativa,
já que esta criança é a nossa alma, o que temos de mais precioso,
o sentido da nossa vida, o tesouro escondido no peito.

Podemos viajar milhares de quilômetros em sua busca,
e não vê-la.

Podemos passar por diversos processos terapêuticos profundos,
e não encontrá-la.

A ascese espiritual, talvez, nos afaste mais ainda dela.
E, no entanto, ela está lá, o tempo todo,
tristemente observando tudo, talvez desesperada, talvez em pânico, quem sabe?…
Muda.Muda?

Certamente ela não utilizará nossas palavras tão eruditas ou racionais.

Não!
Ela expressa seu protesto em nosso corpo,
destrói nossa vida em atos deliberados de pura sabotagem.

OLHE, EU ESTOU AQUI!

Nas entrelinhas de nossa conversa vazia, nas metáforas doídas de nosso corpo cansado.
A preciosidade maior, a luz de nossa vida.

Ela está lá, esperando, onde o tempo não importa, congelada, travada e travando.
É preciso ir a ela. Reconquistar sua confiança.
Falar-lhe em termos que ela possa compreender.
Estender-lhe a mão para que ela possa ver que o tempo passou,
e que sobrevivemos.

Ela mesma encontrará a saída.
Não mais nos atormentará.
Para quê?
Seguiremos juntos, de mãos dadas, trilhando a doce trilha da liberdade.
(abril de 1996)