Artigo publicado na revista Vivências n. 29, 1992

Quando duas pessoas estão envolvidas num jogo de xadrez, se um leigo assiste, não entende nada. Não consegue compreender como aquelas duas pessoas são capazes de despender horas diante daquele tabuleiro. O que se passa ali? Parece-lhe uma aborrecida perda de tempo. Nada mais distante da verdade. É difícil transmitir para o não-iniciado na Arte de Caissa as intensas emoções que estão envolvidas nesse jogo mágico. Como poderia dar-se conta que, naquele tabuleiro, encontra-se o infinito?

O xadrez, como bem coloca Idel Becker, é jogo-arte-ciência. É também misterioso e iniciático. É uma reprodução da própria vida. Ou, para Bobby Fisher – talvez o maior campeão de todos os tempos – é a própria vida.

Verdade que Fisher enlouqueceu… parou de jogar competitivamente, voltando depois de l0 anos, quando já não era mais o mesmo. Sim, o xadrez pode levar à loucura. Ou pode levar ao autoconhecimento. Ou pode levar ao êxtase. Voltando a citar Idel Becker, autor do clássico Manual de Xadrez, o xadrez – como o amor – como a música – tem o poder de fazer os homens felizes.

Recentemente, procurei introduzir o ensino do xadrez numa escola primária, e acho que seria muito benéfico se fosse ensinado em todas as escolas. O xadrez desenvolve a inteligência, o raciocínio, a memória, o autocontrole, a capacidade de planejar, a criatividade. E, ainda por cima, é divertido, as crianças adoram!

Quando eu defendia o ensino do xadrez nessa escola, um amigo observou: mas não seria um estímulo ao espírito competitivo? Sim, é possível. Acho que existem dois tipos de competição: a honesta e a desonesta. Considero que a primeira pode ser positiva, enquanto a segunda é evidentemente negativa. A competição é honesta quando é francamente declarada, e quando as regras são claras e justas. Neste caso, que vença o melhor! Os participantes se esforçarão para superarem seus próprios limites. Na competição honesta, a tendência é desenvolver-se amizade entre os contendores, que aprendem a se conhecer e a se respeitar. A competição honesta também estimula a humildade, pois sabemos que podemos perder. Portanto, não sou contra a competição em si. Na verdade, adoro uma boa competição!

Concordo que, na Nova Era, enfatizamos a cooperação, no lugar da competição. Mas penso que a boa competição pode levar à cooperação. Por exemplo, após um bom jogo de xadrez, os contendores podem passar a analisar a partida e, através dessa análise conjunta (cooperação), ambos virão a evoluir em seus conhecimentos. Pode acontecer ainda, que seu adversário venha a ser, em algum momento, seu companheiro de equipe, e é de seu interesse que ele esteja o melhor possíve1.

Quem aprecia um esporte competitivo necessita um adversário à altura, caso contrário não tem graça. A bem da verdade, no caso do xadrez, eu prefiro enfrentar um adversário mais forte a um mais fraco, pois aí posso aprender mais. Portanto, o adversário, no caso, é um amigo. Sem ele não teria todas aquelas emoções intensas. Nem que o adversário seja… um computador !

Poder-se-ia ainda argumentar que, neste início da Nova Era, deveríamos nos concentrar no desenvolvimento da intuição, e não na parte analítica do cérebro. Embora este argumento seja correto, penso que, na prática, não podemos separar esses aspectos. Eles realmente andam de mãos dadas, e isso fica claro no jogo de xadrez. Diante de uma posição complexa, penso, penso, penso e não vejo saída. Levanto, dou uma volta, tomo água. Torno a sentar-me. Olho o tabuleiro e, subitamente, me vem o lance salvador. É totalmente inesperado. A resposta me veio num clarão intuitivo, mesmo o xadrez sendo absolutamente lógico, necessitando objetividade e apurada análise crítica.

E por que seria o xadrez um instrumento terapêutico? Como mencionei, intensas emoções podem estar envolvidas na disputa do jogo. Assim, temos aí um perfeito laboratório para a vida.

Às vezes, você pensa que está perdido e, de repente, a coisa vira e você ganha! Lição: lutar até o fim sem desanimar; acreditar em si mesmo; o seu potencial é maior do que imagina.

Você sente que seu adversário é inferior e começa a menosprezá-lo, desconcentrando-se. Pode errar e perder a partida. Lição: manter a humildade; não facilitar; completar as situações.

Você tem um plano de ação e seu adversário lhe obriga a mudar completamente de plano. Lição: flexibilidade; persistência.

O principiante quer massacrar rapidamente o adversário. Parte para o ataque e se esquece da defesa. Geralmente dança bonitinho. Lição: paciência; construir uma base antes de agir; saber quando avançar e quando recuar.

Às vezes, você luta horas para obter uma pequena vantagem. Com muito esforço, você consegue ficar um pouco melhor. Tem chances de vitória. Então… um lapso terrível! Um momento de desconcentração e você perdeu a vantagem que tinha; na verdade, agora seu adversário está melhor. Horas de esforço perdidas. Uma jogada pôs tudo a perder. Lição: a vida é assim mesmo, não é? Ela não permite vacilos. As honras e méritos do passado não lhe dão o direito de tornar-se excessivamente indulgente consigo mesmo no presente.

Você pensa que está melhor e, de repente, toma cheque-mate! Lição: se oriente na vida;
Liberte-se das ilusões, caia na real!

Você ganha, empata, perde. Às vezes, joga bem, às vezes, mal. Às vezes, tem sorte, às vezes, nada dá certo. Lição: aceitar a vida como ela é. É importante saber ganhar e saber perder com dignidade.

A análise de uma partida, após seu término, é preciosa fonte de aprendizagem: onde foi que errei? Onde foi que acertei?

Enfim, se assim for encarado, o xadrez pode ser precioso instrumento educacional e terapêutico. Eu recomendo sua prática a todos. Penso que seus aspectos positivos superam, de longe, seus aspectos negativos, podendo ser bem ou mal empregado, como tudo o mais.

Procurei ser sucinto e objetivo. Haveria muito mais a ser dito. Na verdade, eu amo o jogo de xadrez. Lamento não ter mais tempo para me dedicar a ele. Agradeço ao meu pai por ter me ensinado o xadrez, quando eu ainda era criança, e agradeço por tê-lo ensinado a meus filhos. Se sou bom jogador? Se você é fraco, eu sou temível!
Se você é forte, eu sou ridículo! Tudo (ou quase tudo) é relativo! Bom divertimento!