Vamos conversar sobre o tempo
O tempo acabou
Ou melhor, falta pouco tempo
Para que ele termine.
Em tempos de escassez de tempo
Não temos tempo para conversar
E muito menos para poemar
Compor, ouvir ou apreciar.

Que tempo é esse sem poesia?
Que louco tempo é esse
Em que corremos atrás do tempo
Que escapa por entre nossos dedos
Como areia desce do relogio de areia

Santo tempo solto escoando sem tampo.

Hoje me vejo temponauta
Em meio às ranhuras do tempo
Tempestuosa era de despedaçamento
Navegando pelas fissuras do tempo
Ponta do iceberg, que está derretendo.

Há muito olvidado
O tempo silente
De repente turbilhão
Absurdo tempo fremente insano.

Metástase cruenta
Hecatombe sangrenta
carnívora, maligna
Corta, tira, não hesita.

Decrete logo o fim do tempo
Empacote-o de pronto
Prêt a porter, vite, tout de suite,
Enterre-o sem medo.

Tudo tem seu tempo
E até o proprio tempo
Teve seu tempo, que acabou.
Tempo – seu nome é ilusão.

Soltando, sou tanto o tempo
Soprado pelo vento
Precária existência
Brilham as luzes do não-tempo
Por trás de tênue neblina
Trazendo a esperança de um tempo melhor…

Como será o tempo sem tempo?
Como será despertar
Do longo sono dos milênios?
Estamos sobre a ponte que vai do tempo
ao não-tempo.

Não há como contemporizar
Com o novo tempo sem tempo
Haverá tempo para tudo
Pressa para nada
No momento certo, destemporizado
Sem momento, cada vez mais perto.

Acho que nunca existiu o tempo
Mágica magistral
Cem mil anos de sono profundo
Assim imaginamos
A impossível presença do tempo
A inezequível ausência do amor.

Voltaremos a nos interessar por poemas
Merecemos agora cem mil anos de não-tempo
Estará novamente brincando o poeta?
Não! Após tanto tempo com tempo
Devemos ter outro tanto sem tempo
Não há porque ganhar tempo
Para melhor aproveitar o tempo.

Não perca tempo!
Não deveria surpreender
Estar eu sedento pelo não-tempo
Aos sinais estou bem atento.

Tempo terminando
Sem destempero
Tempo por um fio
Prorrogação do tempo?
Não tem possibilidade
Tempo dualidade
Bem e mal
Glória e horror
Ganhar e perder.

Com o fim do tempo
Ou melhor, com o fim da ilusão do tempo
Termina a dualidade,
Ou melhor, a ilusão da dualidade
E só nos resta ser.

Adeus tempo
Foi bom te conhecer
Profundo é teu misté
Por demais longo foi teu ministério.

Senhores, está decretado o fim do tempo
Assim falou o Senhor do Tempo
Há muito tempo atrás
Quando o tempo ainda nem existia.

Náufrago, órfão do tempo
Liberto, ex-servo do tempo
Espio pela janela do tempo
Totalidade, infinito, eternidade
Sentinela do tempo
Contemple, constate, alardeie.

Você foi ao cinema
E acabou a sessão
O projetista assim disse:
Está na hora de partir
Necessitamos varrer a sala
Esperamos que tenham apreciado o filme.
Bom dia!

Miklos Burger
Surgiu ao final de 2010, chegou a esta forma no início de 2011